Em delação, doleiros relatam propina para advogado em troca de proteção

Juca Bala e Cláudio de Souza relataram pagamentos ao advogado Figueiredo Basto

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Especialista na negociação de delações premiadas, Figueiredo Basto defendeu o doleiro Alberto Yousseff, um dos primeiros delatores da Lava-Jato. Também negociou os acordos de Lúcio Bolonha Funaro, considerado o principal operador do PMDB; do empreiteiro Ricardo Pessoa, do grupo UTC; e do ex-diretor da Petrobras Renato Duque.

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Segundo Juca Bala, o doleiro Enrico Machado o teria procurado, entre 2005 e 2006, exigindo o pagamento da taxa mensal “a fim de possuir proteção da Polícia Federal e do Ministério Público”. A quantia combinada era entregue, segundo ele, em endereços indicados por Enrico, que também receberia valores iguais de outros doleiros. Os pagamentos seriam destinados a Figueiredo Basto e outro advogado, que não teve o nome citado.

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Já Cláudio de Souza disse aos investigadores que foi instado a pagar US$ 50 mil para “fornecer proteção” a Dario Messer — considerado o doleiro dos doleiros — e outras pessoas ligadas à atividade de câmbio ilegal. Ele também diz que Basto e outro advogado que trabalharia com ele seriam os responsáveis por oferecer essa proteção.

A Força-Tarefa da Lava-Jato no Rio afirma que os fatos relacionados ao advogado foram tornados públicos logo após a deflagração da Operação “Câmbio, Desligo” por sua suposta ligação com o doleiro Dario Messer. Os advogados prestaram esclarecimentos ao Ministério Público Federal e apresentaram justificativas para o recebimentos dos valores que, segundo eles, teriam sido recebidos por prestação de serviços advocatívios. O depoimento formal dos envolvidos será colhido no momento oportuno, segundo fontes na força-tareifa. Figueiredo Basto negou com veemência que tenha recebido dinheiro para proteger Vinícius Claret ou qualquer outro doleiro contra delações de Alberto Youssef ou qualquer outro investigado. O advogado argumenta que sequer conhece Claret.

— Essa acusação é absurda. Como é que uma pessoa paga para uma outra USS 50 mil por mês e não sabe quem é, não faz nenhuma pergunta. Isso não faz sentido — disse Basto.

O advogado até se colocou à disposição do Ministério Público para falar sobre o assunto.

BRIGA ENTRE DOLEIROS

Os dois colaboradores relataram que o esquema de pagamentos a Figueiredo Basto teria provocado conflitos entre os doleiros envolvidos no esquema. Cláudio de Souza disse que Messer teria se desentendido com Enrico Machado porque se recusou a pagar a propina.

Por sua vez, Juca Bala cita que o também doleiro Najun Turner teria rompido relações com Messer e Enrico por discordar dos pagamentos direcionados a Figueiredo Basto.

As delações de Juca Bala e Cláudio de Souza motivaram a a operação Câmbio, desligo, da força-tarefa da Lava-Jato do Rio no começo de maio. A operação expediu 53 mandados de prisão contra doleiros e pessoas relacionadas ao esquema de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

De acordo com as investigações, os envolvidos teriam utilizado mais de 3 mil empresas offshore, com contas em 52 países, para movimentar cerca de R$ 1,6 bilhão entre 2008 e 2017. Os investigadores identificaram a atuação de 39 doleiros nas transações mapeadas. Principal alvo da operação, o doleiro Dario Messer segue foragido das autoridades brasileiras. Juca Bala e Cláudio de Souza deixaram a prisão após a operação.

 

 

POR JULIANA CASTRO E IGOR MELLO

Do O Globo


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