Polícia prende suspeitos de matar Marielle Franco: um deles, o PM Ronnie Lessa, é vizinho de Jair Bolsonaro no Rio

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A vereadora Marielle Franco foi assassinada há quase um ano no Rio de Janeiro, no dia 14 de março.

Mesmo morta e, portanto, fora do caminho de quem queria se livrar dela, a máquina de moer carne da direita tentou atacá-la com uma série de mentiras nas redes sociais.

Chegaram a associá-la a um grande traficante, ao crime organizado.

Quem matou Marielle Franco pela segunda vez o fez de maneira organizada?

Durante as investigações, algo de muito estranho aconteceu: a clássica tentativa de criar um falso positivo, ou seja, sugerir à polícia falsos suspeitos com o objetivo de embaralhar o caso.

Chegou ao ponto de a Polícia Federal abrir um inquérito com o objetivo de apurar o comportamento de alguns policiais civis.

Ontem, véspera da prisão dos suspeitos, o presidente da República Jair Bolsonaro atacou no twitter a filha do jornalista Chico Otávio — e mencionou o próprio.

Otávio é um dos poucos jornalistas investigativos do Brasil capaz de ir além da polícia em suas apurações.

Um dos presos, o sargento Ronnie Lessa, mora no mesmo condomínio de Jair Bolsonaro, no Rio.

Como as prisões foram feitas nesta madrugada, é óbvio que Chico Otávio e seus colegas já tinham tido tempo para escrever a respeito.

Coincidências, obviamente

Elcio e Ronnie, o vizinho de Bolsonaro

PM e ex-PM são presos pelo assassinato de Marielle Franco

Sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa teve a prisão preventiva decretada pelo juiz-substituto do 4º Tribunal do Júri

Chico Otávio, Vera Araújo e Arthur Leal, em O Globo

RIO – A Delegacia de Homicídios (DH) da Capital e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ) prenderam na manhã desta terça-feira o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes.

Na quinta-feira, os assassinatos completam um ano. Os dois tiveram a prisão preventiva decretada pelo juiz substituto do 4º Tribunal do Júri Gustavo Kalil, após denúncia da promotoria.

Segundo a denúncia do MP do Rio, Lessa teria atirado nas vítimas, e Elcio era quem dirigia o Cobalt prata usado na emboscada. O segundo acusado foi expulso da corporação.

Segundo a denúncia das promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile, o crime foi “meticulosamente” planejado três meses antes.

Além das prisões, a operação busca cumprir mandados de busca e apreensão nos endereços dos denunciados para apreender documentos, telefones celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munições e outros objetos.

Lessa e Elcio foram denunciados pelo assassinato e também pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, assessora da vereadora que sobreviveu ao ataque.

A ação foi batizada de Operação Buraco do Lume, em referência ao local no Centro de mesmo nome, na Rua São José, onde Marielle prestava contas à população sobre medidas tomadas em seu mandato. Ali ela desenvolvia também o projeto Lume Feminista.

Os denunciados foram presos às 4h desta madrugada.

As promotoras pedem ainda a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa.

Também foi requerida a indenização por danos morais aos familiares das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor do motorista Anderson até completar 24 anos de idade. Em certo trecho da denúncia, elas ressaltaram: “É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia. A barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito”.

A polícia e o Gaeco chegaram às 4h desta terça-feira às casas dos investigados. O policial Lessa mora no condomínio de Vivendas da Barra, na Avenida Lúcio Costa, 3.100, por coincidência, o mesmo do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL).

Não há, porém, nenhuma ligação, a não ser o fato de serem vizinhos. O condomínio fica de frente para o mar, com seguranças na portaria.

Suspeito acompanhava agenda de Marielle

A principal prova colhida pelos investigadores saiu da quebra do sigilo dos dados digitais de Ronnie Lessa. Ao verificar os arquivos acessados por ele pelo celular, antes do crime, armazenados na “nuvem” (dados que ficam guardados em servidor externo e podem ser vistos remotamente), eles descobriram que o suspeito monitorava a agenda de eventos que Marielle participava.

Para a polícia, é um indício de que a vereadora estava tendo seus passos rastreados. Marielle, segundo a investigação, participou de pelo menos uma das agendas pesquisadas pelo suspeito.

De acordo com uma fonte que investiga o caso, Lessa usava na época do crime um telefone “bucha” (comprado com o CPF de terceiros, para não ser rastreado).

Já o aparelho registrado na operadora telefônica em nome do próprio sargento foi usado no dia do duplo assassinato por uma mulher em um bairro da Zona Sul.

O objetivo do militar suspeito, segundo o investigador, foi o de confundir a polícia, caso os agentes fossem verificar as antenas de telefonia das estações de rádio-base (ERBS) para checar se o celular pessoal de Lessa estava no local do crime.

E foi exatamente o que os agentes fizeram. Para chegar ao celular “bucha” usado pelo PM no local do crime, os investigadores realmente tiveram que fazer o que eles chamam de triangulação de antenas, ou seja,  levantar as ERBS da região do crime e traçar uma localização mais precisa, refinando assim as buscas pelo celular dos criminosos.

O resultado deste levantamento dos telefones ligados na região onde a vereadora passou, da saída da Câmara dos Vereadores até o local da emboscada, no Estácio, gerou uma extensa lista.  Era como achar uma agulha no palheiro.

Num exercício de paciência, de vários meses, os policiais da área de tecnologia da DH trabalharam na pesquisa, reduzindo os alvos, mas, ainda assim, o número era elevado.

Apesar da complexidade, os investigadores, baseados numa imagem de câmaras de segurança da Rua dos Inválidos, no Centro, no dia 14 de março, registraram os horários em que um suposto celular aparece aceso dentro do Cobalt prata dos executores. O carro deles estava estacionado perto da Casa das Pretas, onde Marielle participava como mediadora de um debate.

Com o registro do horário que o possível aparelho estava em uso, a polícia fez uma nova triagem na lista de celulares já existente até descobrir que um destes telefones fez contato com uma pessoa relacionada à Lessa. Daí, a polícia partiu para buscar os dados na nuvem do policial.

Homenagem pelos ‘bons serviços prestados’

Extremamente operacional, Ronnie Lessa encontrou no 9º BPM (Rocha Miranda) a unidade perfeita para o seu perfil. Afinal, o batalhão, nos idos de 1992, tinha fama de ser violento, aparecendo com frequência nas manchetes de jornal.

Não é à toa que os policiais que davam serviço naquela época eram conhecidos como “Cavalos Corredores”. Foi da unidade de Rocha Miranda que saíram os PM condenados pela chacina de Vigário Geral, em 1993, quando 21 pessoas — oito delas evangélicos de uma mesma família — foram executadas.

Na época, o batalhão tinha praticamente todo o seu efetivo com casos de auto de resistência, situação que ganhou o holofote justamente por causa do massacre. Ronnie Lessa ainda era soldado e se integrava aos colegas.

Sua guarnição era uma das campeãs de louvores da corporação pelas operações que incluíam a apreensão de armas e drogas, o estouro de locais de endolação de drogas e prisões.

O chefe do grupo era um capitão que inclusive ainda é lembrado nos dias de hoje como um dos três oficiais mais operacionais que passaram pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope): Cláudio Luiz Silva de Oliveira.

Do público em geral, hoje ele é conhecido como o tenente-coronel Cláudio, condenado a 36 anos de prisão como mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011. Ele cumpre pena na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Suspeito recebia muitos elogios

Ronnie Lessa e sua guarnição, quase sempre formada pelos mesmos integrantes, eram parabenizados duas vezes por mês, em média

Era um louvor por mês, sendo que, em 1997, no mês de março houve duas menções. Mas a PM não havia mais espaço para Lessa que junto com outros colegas da mesma guarnição passaram a dar serviço nas delegacia especializadas do Rio, como as que cuidavam de roubos de cargas  — justamente porque a maioria dos alvos era de favelas da área do quartel de Rocha Miranda, que a guarnição conhecia bem –, de capturas de presos (Polinter) e para coibir os sequestros.

Entre os colegas que seguiram com Lessa estão: Roberto Oliveira Dias, conhecido como Beto Cachorro; e os irmãos Ivan Jorge Evangelista de Araújo e Floriano Jorge Evangelista Araújo.

Todos foram investigados na Operação Guilhotina, deflagrada pela Polícia Federal que apurava a corrupção policial na Polícia Civil. Lessa não foi indiciado na época.

Discreto mas eficaz

Lessa também recebeu moção do deputado estadual Pedro Fernandes (PSD), em 23 de novembro de 1998, avô do atual secretário de Educação Pedro Fernandes.

Fernandes destacou na época: “a maneira como vem pautando sua vida profissional como policial-militar do 9º BPM. Sem nenhum constrangimento posso afirmar que o referido militar é digno desta homenagem por honrar, permanentemente, com suas posturas, atitudes e desempenho profissional, a sua condição humana e de militar discreto mas eficaz. Constituindo-se, deste modo, em brilhante exemplo àqueles com quem convive e com àqueles que passam a conhecê-lo. Por tudo isto, sinto-me orgulhoso e honrado ao propor esta moção de louvor”.

Do VioMundo


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