BOLSONARO E A FALTA DE UM PROJETO NACIONAL

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Os cem primeiros dias do governo Bolsonaro estão sendo, até o momento, desastrosos: há queda no mercado de trabalho, na indústria, no PIB, aumento do endividamento de empresas e famílias, piora nos indicadores de educação, e, para completar, alta de inflação (com ênfase para a inflação das famílias mais pobres)!

Os números para a indústria, divulgadoshoje pelo IBGE, mostrando uma queda mensal, de 1,3% no índice geral, deveriam elevar os níveis de adrenalina de qualquer cidadão com um mínimo de compromisso com o interesse nacional.

Na comparação com 2018, a indústria levou um tombo de 6% em março, puxada pela fortíssima queda de 11% no setor de bens de capital, e de 16% no setor de duráveis, que são os pilares da indústria brasileira.

Dias atrás, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou que, em março, houve queda de 6% no faturamento da indústria brasileira.

A produção industrial está caindo rapidamente no Brasil. Não é um problema que começou hoje. É de muito tempo e nenhum governo, desde a redemocratização, fez nada de objetivo para impedir essa deterioração.

Por razões estratégicas, o debate político nacional deveria se organizar em torno dessa perigosa deficiência da nossa economia. Temos minérios, agropecuária, água, petróleo, serviços razoáveis. A única coisa que realmente não temos: uma indústria nacional moderna, tecnificada, ancorada nos setores em que podemos ser efetivamente competitivos à nível internacional.

Podemos criar ou ampliar complexos industriais existentes na área do transporte ferroviário (mobilidade urbana em geral), aviação, computação, tecnologia da informação, medicina, defesa, química, petroquímica, energia elétrica, agropecuária. Todos esses setores já consomem despesas públicas e estatais de grande porte, e portanto poderiam ser alvo de políticas industriais planejadas.

Modernizar a indústria brasileira é a única maneira de sairmos da crise estrutural em que estamos mergulhados desde muito tempo e que perdurou e, em alguns aspectos, se aprofundou durante o “social-liberalismo” dos últimos 30 anos.

O social-liberalismo de tucanos e petistas naufragou o país em crises sociais, econômicas e, por fim, políticas.

A ONU lançou há pouco um estudo, sobre a redução da pobreza na América Latina, durante os anos 2003 a 2013, a chamada “Idade Dourada”, ou “Golden Age” em inglês, que mereceu uma resenhaprovocante da jornalista Erica Fraga, da Folha.

Trecho:

A conclusão é que muito da queda da pobreza nos “anos de ouro”, entre 2003 e 2014, se deveu a esses movimentos imprevisíveis, pouco determinados por políticas domésticas.

Na região como um todo, os chamados componentes transitórios do ciclo econômico explicaram 45,6% da queda na fatia de pessoas vivendo com menos de US$ 5,5 por dia (em paridade do poder de compra).

A redistribuição de renda foi responsável por outros 35% da redução, e apenas 19,4% se deveu ao que mais importa: a tendência de expansão dos países no longo prazo.

Os dados do Brasil são ainda piores. Por aqui, o ciclo respondeu por 54% do movimento que tirou 39,6 milhões da pobreza no período. Programas como o Bolsa Família explicaram outros 33% da redução, e somente 13% foi resultado da nossa capacidade de crescer com as próprias pernas.

Em resumo a ONU atribuiu boa parte da redução da pobreza na América Latina, na Idade de Ouro, a fatores externos alheios às políticas de distribuição de renda. Em outros termos, à sorte. Isso não tira inteiramente o mérito dos governos, porque estes, quando são muito ruins, não há sorte que os ajude. Os governos progressistas souberam aproveitar a sorte para implementar uma série de políticas públicas necessárias. Também para isso foram eleitos.

O relatório da ONU, e o nosso testemunho pessoal e coletivo da história,  mostram que o social-liberalismo ao menos ofereceu uma resposta ao problema radical da pobreza e da fome.

O neoliberalismo pós-golpe, com Temer e seu sucessor eleito,  Bolsonaro, nem isso faz – o que explica o aumento brutal da pobreza desde a derrubada da presidente Dilma.

E o aumento da pobreza, deprimindo o consumo, puxa toda a economia brasileira para baixo.

A conclusão dos economistas da ONU, no entanto, está longe de ser conservadora ou apontar para uma direção conservadora. Ao contrário, as soluções apontadas pelo relatório não poderiam ser mais nacional-desenvolvimentistas:

(…) diversificar a economia, modernizar a indústria, investir em inovação e em educação e reduzir nossa dependência dos ciclos de commodities.

O neoliberalismo de Bolsonaro não pode durar muito, porque, ao não oferecer nenhuma resposta objetiva à deterioração industrial do país, acrescentará, à crise política eterna em que vivíamos na era tucano-petista, a crise social e econômica, em grande escala.

É hora da oposição apresentar um projeto nacional, mas que não seja um manual milagreiro, com fórmulas pré-fixadas, e sim uma plataforma aberta para a contribuição de todos, dialética, dinâmica, flexível, pois um projeto nacional tomará sua forma definitiva apenas no ato de sua materialização. E por isso é preciso que ele comece a avançar desde já, onde for possível.

O projeto nacional não pode ser uma utopia, e sim um plano de ação visando o curtíssimo, o curto, o médio e o longo prazos.

Não basta apresentar propostas durante campanhas eleitorais, é preciso fazê-lo diariamente, com foco, concentrando-se na necessidade de se oferecer, com humildade e sinceridade, soluções práticas, imediatas, à crise.

***

Abaixo os textos e números divulgados hoje pelo IBGE.

Produção industrial cai 1,3% em março

Em março de 2019, a produção industrial nacional recuou 1,3% em comparação a fevereiro deste ano (série com ajuste sazonal), eliminando, assim, o crescimento de 0,6% observado no mês anterior. No confronto com março de 2018 (série sem ajuste sazonal), a indústria caiu 6,1%, queda mais intensa desde maio de 2018 (-6,3%).

O acumulado nos últimos doze meses (-0,1%) apontou o primeiro resultado negativo desde agosto de 2017 e permaneceu com a trajetória descendente iniciada em julho de 2018 (3,3%). Já o acumulado no ano teve recuo de 2,2%. A publicação completa da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF Brasil) pode ser acessada nesta página.

16 dos 26 ramos pesquisados recuaram em março

A queda de 1,3% da indústria reflete o recuo na produção de três das quatro grandes categorias econômicas e 16 dos 26 ramos pesquisados. Entre as atividades, a principal influência negativa foi em produtos alimentícios, (-4,9%), que eliminou parte da expansão de 13,8%, acumulada no período novembro de 2018 a fevereiro de 2019.

Outras contribuições negativas importantes vieram de veículos automotores, reboques e carrocerias (-3,2%), de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-2,7%), de indústrias extrativas (-1,7%) e de outros produtos químicos (-3,3%). O primeiro setor voltou a recuar após avançar 6,4% em fevereiro; o segundo devolveu parte da expansão de 3,9% verificada no mês anterior; o terceiro acumulou perda de 17,6% em três meses consecutivos de queda na produção; e o último acentuou a queda de 0,5% registrada em fevereiro.

Por outro lado, entre os nove ramos que ampliaram a produção, o desempenho de maior relevância foi o de produtos farmoquímicos e farmacêuticos, que avançou 4,6%, intensificando o crescimento de 1,5% verificado em fevereiro e eliminando parte da queda de 10,9% observada em janeiro de 2019.

Entre as grandes categorias econômicas, bens intermediários (-1,5%), bens de consumo duráveis (-1,3%) e bens de consumo semi e não-duráveis (-1,1%) assinalaram as taxas negativas. O primeiro segmento apontou o terceiro mês seguido de queda na produção e acumulou perda de 2,7%; e os dois últimos interromperam dois meses consecutivos de crescimento, período em que registraram expansão de 4,5% e 0,7%, respectivamente. Já o setor produtor de bens de capital (0,4%) apontou a única taxa positiva nesse mês e marcou o segundo avanço consecutivo, acumulando nesse período alta de 5,1%.

Média móvel trimestral cai 0,5%

Ainda na série com ajuste sazonal, a média móvel trimestral da indústria recuou 0,5% no trimestre encerrado em março de 2019, mantendo, assim, a trajetória predominantemente descendente iniciada em agosto de 2018.

Entre as grandes categorias econômicas, bens intermediários (-0,9%) apontou a queda mais acentuada e o segundo resultado negativo consecutivo, acumulando redução de 1,2%. Bens de consumo semi e não-duráveis (-0,1%) também assinalou taxa negativa, permanecendo com a trajetória predominantemente descendente iniciada em agosto de 2018.

Por outro lado, bens de consumo duráveis (1,0%) e bens de capital (0,9%) avançaram, com o primeiro registrando o segundo mês consecutivo de expansão e acumulando nesse período ganho de 2,1%; e o último voltando a crescer após quatro meses seguidos de taxas negativas, período em que acumulou perda de 8,3%.

Produção industrial cai 6,1% em comparação a março de 2018

Na comparação com março de 2018, o setor industrial recuou 6,1%, com resultados negativos nas quatro grandes categorias econômicas, 22 dos 26 ramos, 60 dos 79 grupos e 63,7% dos 805 produtos pesquisados. Vale citar que março de 2019 (19 dias) teve dois dias úteis a menos do que março de 2018 (21).

Entre as atividades, indústrias extrativas (-14,0%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-13,3%) exerceram as maiores influências negativas. Outras contribuições negativas relevantes foram: produtos alimentícios (-5,0%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-23,7%), máquinas e equipamentos (-7,8%), outros equipamentos de transporte (-22,1%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-11,8%), produtos de borracha e de material plástico (-6,7%), impressão e reprodução de gravações (-30,9%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-7,7%), perfumaria, sabões, produtos de limpeza e de higiene pessoal (-11,8%), de manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (-9,5%)
e de móveis (-11,6%).

Já entre os quatro setores que avançaram na produção, os principais impactos foram em coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (5,0%) e bebidas (9,9%).

Ainda no confronto com igual mês do ano anterior, bens de consumo duráveis (-15,8%) e bens de capital (-11,5%) assinalaram os recuos mais acentuados entre as grandes categorias econômicas. Bens de consumo semi e não-duráveis (-5,2%) e bens intermediários (-4,4%) também apontaram taxas negativas, mas menos elevadas do que a média nacional (-6,1%).

Bens de consumo duráveis recuou 15,8%, após avançar 12,6% em fevereiro, quando interrompeu três meses de resultados negativos consecutivos. O recuo foi o mais intenso desde julho de 2016 (-16,1%). O setor foi pressionado pela queda na fabricação de automóveis (-16,8%) e de eletrodomésticos da “linha marrom” (-29,2%) e também pelas reduções em motocicletas (-3,5%) e móveis (-17,1%). Por outro lado, os impactos positivos foram em eletrodomésticos da “linha branca” (2,9%) e outros eletrodomésticos (2,5%).

Bens de capital (-11,5%) marcou a queda mais intensa desde abril de 2016 (-15,0%), influenciado, em grande parte, pelo recuo de bens de capital para equipamentos de transporte (-15,7%). As demais taxas negativas foram: bens de capital para fins industriais (-8,8%), uso misto (-9,5%), energia elétrica (-13,1%) e agrícolas (-9,2%). Por outro lado, o único impacto positivo foi em bens de capital para construção (6,7%).

Bens de consumo semi e não-duráveis (-5,2%) apontou o recuo mais elevado desde maio de 2018 (-9,1%). O desempenho foi explicado principalmente pela queda no grupamento de não-duráveis (-10,6%). Vale citar também os resultados negativos dos subsetores de semiduráveis (-9,3%) e de alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (-2,0%). Já o subsetor de carburantes (1,7%) apontou a única taxa positiva nessa categoria.

Bens intermediários (-4,4%) apresentou a sétima taxa negativa consecutiva e a mais elevada desde maio de 2018 (-4,9%). Resultado explicado, principalmente, pelos recuos nos produtos das atividades: indústrias extrativas (-14,0%), veículos automotores, reboques e carrocerias (-9,5%), produtos de borracha e de material plástico (-6,0%), máquinas e equipamentos (-8,4%), produtos alimentícios (-1,9%), outros produtos químicos (-1,9%), metalurgia (-1,6%), produtos têxteis (-5,2%), celulose, papel e produtos de papel (-0,9%) e produtos de minerais não-metálicos (-0,3%). As pressões positivas foram em coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (6,0%) e produtos de metal (1,9%). Vale citar também os resultados de insumos típicos para construção civil (-3,9%), que interrompeu dois meses consecutivos de crescimento; e de embalagens (1,3%), que apontou o terceiro avanço seguido, mas o menos acentuado dessa sequência.

Em 2019, indústria acumula queda de 2,2%

No índice acumulado para janeiro-março de 2019, frente a igual período do ano anterior, a indústria recuou 2,2%, com resultados negativos nas quatro grandes categorias econômicas, 21 dos 26 ramos, 55 dos 79 grupos e 56,9% dos 805 produtos pesquisados.

Entre as atividades, indústrias extrativas (-7,5%) exerceu a maior influência negativa. Vale destacar também os ramos: equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-13,0%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-10,6%), máquinas e equipamentos (-4,6%), produtos alimentícios (-1,4%), outros equipamentos de transporte (-10,5%), produtos de borracha e de material plástico (-3,4%), metalurgia (-1,8%), produtos de madeira (-7,9%) e celulose, papel e produtos de papel (-2,7%).

Por outro lado, entre as cinco atividades que avançaram na produção, a principal influência foi registrada por coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (4,2%). Outras contribuições positivas relevantes vieram de bebidas (5,0%) e de produtos de metal (5,4%).

Entre as grandes categorias econômicas, houve menor dinamismo para bens de capital (4,3%) e bens de consumo duráveis (-3,4%), pressionadas, em grande parte, pela redução de bens de capital para equipamentos de transporte (-4,2%) e para fins industriais (-4,9%), na primeira; e de eletrodomésticos da linha “marrom” (-16,7%), na segunda. Bens intermediários (-2,0%) e bens de consumo semi e não-duráveis (-1,4%) também assinalaram quedas, mas com recuos abaixo da média nacional (-2,2%).

O setor industrial, ao recuar 2,2% no primeiro trimestre de 2019, intensificou a queda verificada no quarto trimestre de 2018 (-1,2%) e permaneceu com a perda de ritmo iniciada no último trimestre de 2017 (5,0%). A queda de intensidade também foi observada nas quatro grandes categorias econômicas, com destaque para bens de capital (3,3% no quarto trimestre de 2018 para -4,3% nos três primeiros meses de 2019), pressionada, em grande parte, pela menor fabricação de bens de capital para equipamentos de transporte (de 6,0% para -4,2%) e agrícolas (de 28,5% para -5,3%). Bens de consumo duráveis (de -2,5% para -3,4%), bens de consumo semi e não-duráveis (de -0,8% para -1,4%) e bens intermediários (de -1,6% para -2,0%) também fizeram esse movimento entre os dois períodos.

Publicado na Agência IBGE Notícias

Do Cafézinho


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