50 anos de Stonewall – a História da Resistência LGBT

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Durante o final de semana foi realizada mais uma Parada LGBT em São Paulo capital. A edição paulistana acabou se tornando a maior do mundo em número de participantes, e este ano é especial, pois se completam 50 anos de tradição. Entretanto, tudo começou muito diferente no dia 28 de junho de 1969 nos Estados Unidos. Sequer era chamada de “parada”, mas sim de uma rebelião – a Rebelião de Stonewall. Mas nessa época, tudo era muito diferente.

Na década de 60, homossexualidade era considerada um transtorno mental. Homens e mulheres homossexuais e transexuais podiam ser internados em manicômios compulsoriamente e submetidos a “tratamentos” para se tornarem cisgênero (cisgender em inglês, definido pelo Oxford English Dictionary como “designar uma pessoa cujo senso de identidade pessoal corresponde ao sexo e gênero atribuído a ela no nascimento – em contraste com transgênero”) ou heterossexuais.

Não obstante, a legislação da época nos Estados Unidos permitia encarceramento da população LGBT, além de não haver dispositivos trabalhistas para impedir a demissão discriminatória dessa população no mercado de trabalho. Ainda, as forças policiais rotineiramente eram mobilizadas para reprimir bares e outros estabelecimentos frequentados por LGBT’s.

Para entendermos o contexto geral da Rebelião de Stonewall, é preciso considerar que na década de 60 surgem os movimentos de contracultura, a resistência negra contra a política segregacionista contra pessoas negras, além dos protestos contra a guerra do Vietnam. Num momento de polvorosa resistência popular, durante a batida policial no bar Stonewall Inn em Nova York no dia 28 de junho de 1969, a população LGBT da cidade se rebelou e espontaneamente contra-atacaram a polícia.

Com o tempo, a repercussão da rebelião novaiorquina se internacionalizou. Numa época onde não importava se um país fosse capitalista ou socialista (vivia-se a guerra fria na época), LGBT’s do mundo todo viviam sendo perseguidos e discriminados pelo aparato estatal.

No Brasil, a ditadura militar parece ter retardado a repercussão da Rebelião de Stonewall. O relatório final da Comissão Nacional da Verdade e o relatório da Comissão Estadual da Verdade no Estado de São Paulo, dedicam capítulos sobre a perseguição contra LGBT’s durante os anos de chumbo. Destaca-se nessa época a Operação Tarântula, operação que visava “higienizar” os bairros de São Paulo onde havia prostituição.

As vítimas dessa operação eram apreendidas, registradas tal como a Gestapo (polícia nazista) fazia com os judeus e, além disso, muitas relataram terem sido estupradas e agredidas das formas mais sádicas possíveis. Segundo as Comissões da Verdade, após a finalização dessa operação surgiram grupos de extermínio dissidentes dela, ou de outras operações congêneres.

Em 1998 a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença mental no mundo todo. Entretanto, o estrago já estava feito. É daí que muda-se a terminologia de homossexualismo para homossexualidade. Vamos explicar: o sufixo “-ismo” neste contexto é usado no sentido de patologia; enquanto o sufixo “-idade” traz o sentido de “identidade”, “característica”. Isto é, enquanto o primeiro trata a coisa como condição médica, o outro trata como uma dimensão cultural.

A partir dessa mudança de concepção que ainda está em curso, as legislações repressivas passam a cair em vários países do mundo e surgem legislações e políticas públicas para garantirem direitos civis para essa população. Daí surgem o direito ao casamento civil, criminalização da homofobia e da transfobia, legislação que facilita que transsexuais alterem nome e gênero fora das vias judiciais, permissão para adoção, entre outros direitos que heterossexuais sempre tiveram acesso mais fácil comparados à comunidade LGBT.

Mais recentemente, empresas têm investido num marketing positivo em relação a essa comunidade. Desenvolvendo programas de inclusão de funcionários, propagandas direcionadas à comunidade para atendê-la como um nicho de mercado, entre outras.

Dessa forma, sim, a Parada LGBT começou como uma rebelião. Entretanto, naquela época não fazia muito sentido comemorar coisa alguma. Era necessária uma rebelião. Hoje, apesar de estarmos longe de viver uma situação ideal, ainda com diversas discriminações e até um governo altamente reacionário, temos o que comemorar. Mas que a comemoração apenas nos dê mais fôlego para novas conquistas.

Da Redação


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