Hashtag ‘SouMulherSouGamer’ ganha força no Twitter

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Campanha ‘SouMulherSouGamer’ atraiu milhares de compartilhamentos e chegou aos Trending Topics do Twitter

Setecentos e oitenta e nove mil. Esse é o número total de visualizações que a hashtag ‘SouMulherSouGamer’ teve apenas nesta quarta-feira (26). Além disso, cerca de 460 publicações foram feitas sobre o tema nas primeiras horas do dia, de acordo com o site especializado Socialert.

A campanha teve início pelo Twitter Geek & Feminist nesta terça, às 18h. Segundo a própria página, a ideia é que as mulheres compartilhem situações machistas que passaram durante a jogatina. Assim, a principal ideia é mostrar que mulheres podem jogar vídeogame e que merecem o mesmo respeito. No entanto, apenas o tuíte original teve mais de 3,5 mil curtidas e 1,2 mil compartilhamentos.

Reprodução/Socialalert

Apesar da campanha ser recente, o que estimulou a criação da tag ‘SouMulherSouGamer’ teve início há alguns dias. Em entrevista ao Torcedores, o portal conversou sobre a campanha nas redes sociais. De acordo com o portal Geek & Feminist, idealizador da ideia, a polêmica envolvendo Gabi Catuzzo e a Razer foi o gatilho necessário para que o tema fosse debatido na comunidade.

“O que a Gabi Catuzzo sofreu nesses últimos dias abriu muito espaço para debates e para uma conversa necessária sobre como a comunidade dos jogos ainda é extremamente tóxica, sobretudo para mulheres. Só que essas conversas têm acontecido de um jeito muito confuso, espalhadas em pequenos grupos pela internet. É por isso que é tão difícil a gente se posicionar sozinhas, e é por isso que temos trabalhado tanto para criar grupos e espaços exclusivos ou majoritários para as mulheres”, disse o portal sobre o que incentivou a SouMulherSouGamer.

‘SouMulherSouGamer’ nos Trending Topics

Reprodução/Twitter

O sucesso da hashtag levantada pelo portal foi instantâneo. Assim como em outras campanhas como “MyGameMyName” e “JogueComoUmaGarota”, a tag ‘SouMulherSouGamer’ não demorou para receber diversos relatos de mulheres que atuam no cenário dos vídeo games.

Apesar de ter quase 800 mil visualizações só na manhã desta quinta, o sucesso da campanha não é uma surpresa para a equipe do Geek & Feminist. Com o objetivo de unir as mulheres do cenário, os idealizadores do projeto sabem do número massivo de mulheres que estão incomodadas com o assédio nos jogos.

“A ideia da tag foi mesmo para nos unirmos (e buscarmos apoio dos homens-aliados-exceção) num desabafo comum, para podermos mostrar para o mundo (e umas para as outras) que somos, sim, muitas, e que estamos todas incomodadas com o assédio. Nós existimos, nós estamos aqui e nós formamos uma boa parcela do mercado consumidor”.

Perguntado sobre o sucesso imediato da campanha, o portal Geek & Feminist reiterou que não é uma raridade ter mulheres ligadas a jogo. O que acontece, no entanto, é que elas buscam fugir do cenário principal para evitar ouvir/ler ofensas.

“[Esperamos a repercussão] Em parte. O que é preciso compreender é que, ao contrário do que se ouve muito nos fóruns e comunidades por aí, mulher que joga não é raridade. O que acontece é que, por muito tempo, fugimos do cenário principal, buscando alternativas mais familiares e confortáveis. Conhecendo a comunidade gamer feminina tão de perto, já imaginávamos que a resposta seria expressiva. Ainda assim, a tag teve um resultado muito maior do que poderíamos ter imaginado”, revelou o portal.

Repercussão nas redes sociais

Poucas horas após o início da campanha uma página do Twitter foi tirada do ar após fomentar a tag ‘SouMulherSouGamer’. Uma delas ficou a madrugada inteira fora do ar após sofrer diversas denúncias. No entanto, a própria conta do Geek & Feminist chegou a ser tirada do ar, mas teve o problema resolvido rapidamente.

Contudo, o portal afirmou que as polêmicas não ficaram restritas às redes sociais. Isso porque no momento em que eles realizavam a divulgação da campanha em grupos também houve represália do público. De acordo com a Geek & Feminist alguns locais se tornaram tão tóxicos que tiveram que ser deixados de lado.

“A polêmica já começou na divulgação em grupos mistos. Mesmo quando criávamos posts dirigidos apenas a mulheres, os homens se viam impelidos a expressar sua opinião (não que eles não tenham direito a ter opinião — a questão era justamente o post não ser um chamado para eles, e sim para as mulheres presentes naquelas comunidades). Somos mulheres, e ainda por cima nos expressamos sem medo ou reservas no meio geek. Ou seja: infelizmente, estamos acostumadas com ataques”.

“Queremos deixar registrado que as outras páginas ou pessoas que sofrerem alguma consequência em relação aos ataques dessa tag (ou a qualquer ataque dos famigerados homens-lixo) podem sempre contar com nosso apoio”, concluiu.

Representatividade feminina no universo geek

Em um cenário onde a toxidade dos jogadores se camufla atrás da tela do monitor, a força das mulheres na comunidade caminha a passos largos em busca de igualdade. Se a mesma internet é a responsável por um grande número de ofensas às mulheres, também é por meio delas que a força feminina começa a ganhar força por meio da escrita, vídeos e dos próprios jogos.

“Apesar dos avanços, nossos espaço na mídia e na cena geral ainda é muito limitado. Foi com muita luta que conseguimos mudar um pouco a visão do mercado. Assim, a ponto de vermos cada vez mais mulheres protagonistas ou deixando de serem ofuscadas por personagens masculinos. Temos mais jogos e filmes com protagonistas femininas fortes e temos mais empresas de jogos (como a Wizards, por exemplo) apoiando o espaço feminino e punindo com dureza os que tentam nos excluir”, disse o portal.

“A máscara da internet e o cenário político atual dão mais coragem para que as pessoas nos ataquem. E isso deve demorar para mudar, mesmo. Mas, aos poucos, está se criando na internet uma rede de apoio gigantesca, com mulheres e homens”, concluiu.

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA

De onde surgiu a ideia de levantar a hashtag #SouMulherSouGamer?

O que a Gabi Catuzzo sofreu nesses últimos dias abriu muito espaço para debates e para uma conversa necessária sobre como a comunidade dos jogos ainda é extremamente tóxica, sobretudo para mulheres. Só que essas conversas têm acontecido de um jeito muito confuso, espalhadas em pequenos grupos pela internet. As comunidades de discussão que existem por aí em geral têm maioria masculina expressiva, e qualquer tentativa de conversa ou desabafo acaba atraindo a atenção desses que a Gabi chamou muito bem de homens-lixo. É por isso que é tão difícil a gente se posicionar sozinhas, e é por isso que temos trabalhado tanto para criar grupos e espaços exclusivos ou majoritários para as mulheres.

No calor do momento, xingamentos sempre acontecem, tanto para homens quanto para mulheres. A diferença é que as mulheres são perseguidas e assediadas, têm suas contas invadidas, recebem um milhão de fotos de piru e mil perguntas sobre a cor da boceta. As ofensas não param depois que a partida acaba.

A ideia da tag foi mesmo para nos unirmos (e buscarmos apoio dos homens-aliados-exceção) num desabafo comum, para podermos mostrar para o mundo (e umas para as outras) que somos, sim, muitas, e que estamos todas incomodadas com o assédio. Nós existimos, nós estamos aqui e nós formamos uma boa parcela do mercado consumidor. Não é à toa que alcançamos números tão expressivos. Tá mais do que na hora de o mercado e as empresas compreenderem isso.

Ontem a hashtag chegou a entrar nos Trendind Topics do Brasil. Vocês esperaram por essa repercussão?

Em parte. O que é preciso compreender é que, ao contrário do que se ouve muito nos fóruns e comunidades por aí, mulher que joga não é raridade. O que acontece é que, por muito tempo, fugimos do cenário principal, buscando alternativas mais familiares e confortáveis. Temos grupos exclusivos para mulheres onde trocamos ideia, conversamos, marcamos jogatinas… E isso foi ajudando muito a comunidade feminina de gamers a crescer. Só que não podemos nos esconder para sempre. Temos que ocupar todos os espaços. Temos que ficar do lado das poucas que tem coragem de se expor em streamings (que infelizmente ainda são minoria), temos que participar mais ativamente dos debates, temos que expressar nossa insatisfação, denunciar os abusos e os abusadores (sem esconder nomes!) e lutar pelos nossos direitos.

Conhecendo a comunidade gamer feminina tão de perto, já imaginávamos que a resposta seria expressiva. Ainda assim, a tag teve um resultado muito maior do que poderíamos ter imaginado.

Como foi a recepção do público em relação à hashtag?

Nos grupos exclusivamente femininos, a ideia foi logo aceita, mesmo entre as que se expressam menos pública e politicamente. Foi lindo: um apoio instantâneo, que nos deu muita força para seguir em frente. A polêmica já começou na divulgação em grupos mistos. Mesmo quando criávamos posts dirigidos apenas a mulheres, os homens se viam impelidos a expressar sua opinião (não que eles não tenham direito a ter opinião — a questão era justamente o post não ser um chamado para eles, e sim para as mulheres presentes naquelas comunidades). Em alguns grupos, o ambiente é tão tóxico que apenas largamos o aviso e deixamos para lá. Por sorte, temos os homens-exceção, aqueles que além de apoiar a ideia, ainda divulgaram e ajudaram a frear os ânimos de seus colegas mais exaltados.

A tag em si e as histórias compartilhadas também geraram bastante incômodo — e, com isso, vieram as respostas exaltadas. Mas, bem, esse era meio que o objetivo, né? Estamos cansadas de ficar incomodadas sozinhas, queremos expor nosso incômodo, queremos que todos participem e compreendam desse incômodo. Queremos que as empresas compreendam a insatisfação dessa parcela de consumidores e vejam, como muitas outras, as possibilidades de mercado disponíveis.

Pressionando o suficiente, quem sabe, como sociedade, conseguiremos mudar as coisas.

Vocês esperavam os ataques que sofreram em consequência da hashtag? Como lidam com isso?

Somos mulheres, e ainda por cima nos expressamos sem medo ou reservas no meio geek. Ou seja: infelizmente, estamos acostumadas com ataques. Já esperávamos algumas consequências, e não ficamos surpresas quando elas vieram. Somos um grupo forte e unido e temos uma linda comunidade de apoio. Esse é o fundamental, e é assim que lidamos com tudo: juntas, conversando, apoiando umas às outras e nos ajudando a encontrar a melhor solução possível (que muitas vezes é simplesmente não levar para o pessoal, apenas denunciar os ataques e partir para a próxima).

Uma das páginas que ajudou a subir a hashtag foi denunciada e teve o perfil tirado do ar essa madrugada. Vocês também passaram por algo parecido? Como enxergam essas atitudes de pessoas que se mostram totalmente contra à ação?

Soubemos da situação da outra página, e queremos deixar registrado que as outras páginas ou pessoas que sofrerem alguma consequência em relação aos ataques dessa tag (ou a qualquer ataque dos famigerados homens-lixo) podem sempre contar com nosso apoio. Hoje pela manhã, nossa conta ficou inativa por alguns minutos, mas logo conseguimos resolver o problema. Infelizmente, essa é uma das consequências possíveis de se posicionar. Não é surpreendente, mas ainda assim é um choque: essa ação é apenas para denunciar os abusos que sofremos e pedir respeito. É muito triste que isso pareça tão agressivo e errado no mundo em que vivemos.

Como vocês enxergam o espaço da mulher na cultura pop de forma geral, seja em filmes, jogos e universo geek?

Apesar dos avanços, nossos espaço na mídia e na cena geral ainda é muito limitado. Foi com muita luta que conseguimos mudar um pouco a visão do mercado, a ponto de vermos cada vez mais mulheres protagonistas ou deixando de serem ofuscadas por personagens masculinos. Temos mais jogos e filmes com protagonistas femininas fortes e temos mais empresas de jogos (como a Wizards, por exemplo) apoiando o espaço feminino e punindo com dureza os que tentam nos excluir. Além disso, temos comunidades de mulheres cada vez maiores surgindo por aí. Tem muita mulher jogando, escrevendo, assistindo, lendo… O que queremos, agora, é que mais e mais mulheres ocupem esses espaços públicos. Ainda não é meio a meio, e o mínimo que podemos fazer é lutar por mais representatividade, por uma comunidade menos agressiva e por mais apoio para que a gente consiga crescer cada vez mais.

Perceberam alguma evolução em relação a isso?

Principalmente na internet, onde as pessoas se mascaram atrás do monitor e se sentem mais livres para realizar ofensas. A máscara da internet e o cenário político atual dão mais coragem para que as pessoas nos ataquem. E isso deve demorar para mudar, mesmo. Mas, aos poucos, está se criando na internet uma rede de apoio gigantesca, com mulheres e homens que não necessariamente compartilham dos mesmos ideais de vida, mas que compreendem que é preciso dar voz aos problemas e denunciar os abusos, que só assim a gente vai ter respeito de verdade.

Querem falar sobre alguma coisa que não foi perguntado? Fique à vontade.

Essa tag é sobre ter coragem de denunciar. Sobre a necessidade de contar o que aconteceu e de expor as pessoas que foram ruins com a gente. De explicar e de intervir na hora. É para mostrar que podemos nos levantar e sair e que fora de um grupo ruim vamos encontrar um monte de gente disposta a jogar junto com a gente. Não precisamos tolerar ambientes tóxicos. Não vamos tolerar. Para os homens que estão acompanhando e apoiando a tag, é preciso que vocês entendam a necessidade de intervir. De não ficar quieto olhando o seu amigo xingar uma mulher na internet. De não deixar seu mestre de RPG ser babaca com aquela garota que tá tentando jogar. De mandar seu amigo à merda quando ele começar a duvidar da capacidade de uma mulher em relação a qualquer jogo. É preciso que vocês entendam que as generalizações são recursos de linguagem para falar da vida em sociedade. É preciso que vocês compreendam que, infelizmente, por enquanto, ainda são exceções.

Por Filipe Carbone


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