O que podemos aprender com a minissérie Chernobyl

Banner na materia inicio  816 x90

Entre maio e junho deste ano a HBO exibiu a minissérie Chernobyl, que trata do desastre nuclear na Ucrânia soviética em 1986. A produção causou um enorme impacto e teve uma excelente recepção por parte dos telespectadores. Contando com um figurino e cenários baseados nos registros históricos da época, a série consegue retratar uma verossimilhança impressionante e projeta uma atmosfera de tensão e morbidez.

De forma geral e contendo spoilers, podemos resumir a história a uma tragédia que imputa aos operadores da usina, que de maneira irresponsável violaram todos os protocolos de segurança, mas que o fizeram acreditando que havia um dispositivo para desligar o reator e impedir uma catástrofe nuclear. No entanto, esse dispositivo possuía uma falha fatal que poderia transformar o reator em uma bomba, cuja a existência foi ocultada pelas autoridades soviéticas.

Assim, o enredo narra os eventos para se remediar as consequências desastrosas da explosão do reator de número 4 e a luta para tornar pública a causa do desastre para que uma tragédia daquele porte nunca mais acontecesse. Segundo a série, o Estado soviético e seus cientistas trabalharam incessantemente para conter a radiação que poderia ter devastado todo o continente ou até mesmo contaminar os rios que abasteciam uma região de mais de 60 milhões de habitantes.

O conteúdo chocante do enredo de Chernobyl nos faz questionar como algo tão terrível poderia ter acontecido em nosso mundo. Muitos não hesitam em atribuir a culpa ao sistema socialista soviético. Entretanto, se fizermos uma autoanálise honesta e impiedosa, podemos identificar que as sociedades ocidentais não aprenderam nada com o erro soviético.

No Brasil, milhares de pessoas sofreram com as consequências da exposição do Césio 137 no estado de Goiás. Tal como na série da HBO, algumas vítimas tiveram de ser enterradas em caixão de chumbo e cobertas por concreto. E para proteger o comércio interno abalado pelo medo de que os gêneros agrícolas e pecuários do estado de Goiás estivessem contaminados, as autoridades abafaram muitos detalhes do caso.

Eventos mais recentes também não faltam. Os desastres de Mariana em 2015 e Brumadinho em 2018 podem não ter tido radiação, mas além das mortes causadas pela ruptura das barragens, os rejeitos continham substâncias altamente tóxicas que contaminaram rios e até faixas litorâneas onde esses rios desaguavam. A biodiversidade dessas regiões foi impactada de tal forma que ela só deve se recuperar daqui mais de 100 anos, isso se houverem investimentos em ações para sua recuperação.

O Rio Doce, uma das maiores bacias hidrográficas do Brasil, foi devastado pelos rejeitos cheios de ferro e até mercúrio. Cidades como Governador Valadares chegaram a ficar sem abastecimento de água por dias, e a mineradora Vale chegou a enviar água para a população num contêiner utilizado para transporte de querosene.

Ainda por cima, todos os responsáveis acabaram por serem blindados judicialmente e até hoje ninguém foi punido, mesmo em 2018 uma tragédia ainda maior que a de Mariana ter acontecido. As vítimas diretas e indiretas, também, não foram compensadas pelas suas perdas e em Mariana, os atingidos pela barragem de 2015 são até mesmo discriminados em sua cidade por conta da campanha de difamação empreendida pela Vale.

Dessa forma, quando nos questionarmos sobre como é possível que tragédias como a de Chernobyl aconteçam e sejam abafadas ao ponto de os responsáveis não serem verdadeiramente punidos, basta olharmos para nossa própria sociedade. Por isso, é importante que continuemos a nos lembrar e a denunciar esses descasos, para que se pense duas vezes antes de se priorizar o lucro em detrimento do custo humano.

Da Redação


Todo e qualquer comentário é de inteira responsabilidade do seu autor e em nada tem a participação do site RO24HORAS
Loading...