Espelhado nos EUA, Brasil restringe comércio com Cuba

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O modelo adotado pelo Governo Bolsonaro é diferente do norte-americano, mas, do mesmo jeito, restringe a entrada de divisas na Ilha de Fidel. Na entrevista a’Os Divergentes, o encarregado de Negócios Cubanos no Brasil, Gómez González, garante que Cuba vai pagar a divida com o BNDES para a construção do Porto de Mariel

O governo do presidente Jair Bolsonaro não adotou medidas formais de restrições econômicas à Cuba, como tem feito os Estados Unidos, mas suas ações vão na mesma linha de criar dificuldades ao modelo socialista implementado por Fidel Castro.

A melhor medida para se ter uma ideia de como andam as relações econômicas entre Brasil e Cuba é o comportamento da balança comercial. O Brasil reduziu em 76,53% as importações de produtos e serviços cubanos nos oito primeiros meses do governo do presidente Jair Bolsonaro, quando comparado com mesmo período de 2018. Nossas importações foram de apenas US$ 7,35 milhões.

Do outro lado, o Brasil exportou para Cuba, neste mesmo período, US$ 177,4 milhões em carnes (especialmente frango), farelo, óleo de soja, arroz, bebidas e cigarros, entre outros produtos. É verdade que os cubanos importaram menos 29,08% de janeiro a agosto de 2019 quando comparado a igual período de 2018.

Menos importações lá, menos empregos aqui

Mas é fato que estarão mandando aos cobres do Brasil líquidos US$ 170 milhões. O fato dramático é que não são apenas divisas que o Brasil está tirando desta relação incômoda para Bolsonaro.

Com o volume de aquisições feitas pelos cubanos são gerados aqui empregos, serviços e impostos que vão para os cofres públicos. Com os mesmos elementos chegamos a conclusão de que as importações feitas pelo Brasil tiveram um impacto de apenas 4% naquele País.

Interessados neste mercado consumidor cubano, cerca 100 empresários brasileiros conseguiram manter uma agência do Banco do Brasil em Havana para facilitar as relações de comércio entre os dois países, coisa que foi desaconselhada por autoridades do Ministério das Relações Exteriores. A agência do BB é o que restou das representações brasileiras que havia nos governos do PT.

Sem diálogo

O encarregado de Negócios de Cuba no Brasil, Rolando Antonio Gómez González, disse que foi muito bom o entendimento com empresas brasileiras, feito dentro de regras claras de comércio internacional.

Rolando González, encarregado de Negócios Cubanos no Brasil – Foto: Orlando Brito

Quando indagado pela equipe de Os Divergentes, na residência oficial da Embaixada de Cuba no Lago Sul de Brasília, sobre a relação com o governo de Jair Bolsonaro, González lamenta e diz que a conversa não anda. O experiente diplomata cubano, que já passou por países europeus e do Oriente Médio, apenas relata fatos inusitados na diplomacia que envolvem Brasil e Cuba.

Gómez González não foi convidado para a posse de Jair Bolsonaro. Ou melhor: recebeu o convite para ir e, em seguida, um deselegante pedido para não ir.  Ele também não foi convidado para o desfile de 7 de setembro brasileiro e não recebeu qualquer manifestação sobre as comemorações da data nacional de Cuba.

Embaixadora de Cuba, Marielena Ruiz Capote, entrega suas credenciais à então presidente Dilma – Foto Agência Brasil

Há um ritual na diplomacia que está sendo observado pelos dois países para evitar que o que está ruim fique pior. Quando a ex-presidenta Dilma Rousseff sofreu impeachment em 2016, o Governo Cubano, em protesto, chamou de volta a embaixadora Marielena Ruiz Capote.

Em seguida, Cuba enviou, no lugar da embaixadora, Gómez González. Entretanto, ele assumiu como encarregado de Negócios, cargo que não tem as mesmas atribuições diante de um presidente da República.

Porto de Mariel: “Vamos pagar a dívida”

Voltando ao impacto econômico. Com a manifestação de Jair Bolsonaro contra o Mais Médicos, programa criado pelo PT, Cuba perdeu uma receita anual em torno de US$ 300 milhões que tinha com o Brasil. Ainda no governo do presidente Michel Temer, o Brasil suspendeu as importações de insumos para medicamentos, coisa que gerava a Cuba outros US$ 300 milhões.

Programa Mais Médicos. Foto DIvulgação

Estes dois fatos, mais as destruições provocadas por furacões em 2018 e 2019, aumentaram as dificuldades financeiras para honrar compromissos de um empréstimo de US$ 682 milhões do BNDES à Cuba para a construção do Porto de Mariel, erguido pela brasileira Odebrecht. Os pagamentos ao Brasil foram suspensos ainda em 2018.

“Os pagamentos ao BNDES serão retomados em 2020”, garantiu Gómez González, assim que sejam superadas as atuais restrições econômicas impostos pelos Estados Unidos à Ilha.

A volta das liberdades

“A administração dos Estados Unidos anunciou a implementação de novas medidas que dificultam acesso a divisas e limitam o acesso de remessa de recursos familiares. Estão restringindo a liberdade do povo dos Estados unidos e cubano. Se empenham em impedir a entrada de combustível em Cuba, impedindo a entrada de navios nos portos cubanos. Há restrições nos países onde estão registrados os navios de transportes que têm negócios com Cuba e as empresas de seguro são impedidas de fazer seguros das cargas com petróleo”, discursou o presidente Cubano, Miguel Díaz-Canel, em vídeo ao qual Os Divergentes teve acesso.

Miguel Díaz-Canel. Foto: Granma

s restrições feitas pelo Estados Unidos, coisa que vem ocorrendo nas últimas décadas, procuram forçar as autoridades cubanas a realizar mudanças no modelo socialista adotado em Cuba.

Nos últimos anos, o Governo Cubano promoveu muitas mudanças na economia e em questões relativas aos costumes, em linha com o ideal de dignidade adotado pelos países ocidentais. Um vídeo feito por autoridades cubanas, mostra ações afirmativas do governo em defesa de direitos de homossexuais e lésbicas. A liberdade de fé é apresentada como direito amplo da população em qualquer religião, coisa impensável para os velhos marxistas cubanos.

A  agricultura familiar, para atender com alimentos saudáveis o consumidor local, com virou moda no mundo ocidental, faz parte das ações de governo para gerar emprego e renda às pessoas que vivem no  campo.

Por Ivanir José Bortot

No Os Divergentes

Ivanir José Bortot

Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com pós graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração(FAE) de Curitiba/PR. Repórter especializado em finanças públicas e macroeconomia, com passagens pela Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo e Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Participou da cobertura de formulação e implementação de todos os planos econômicos do país deste o Plano Cruzado, em 1985, ao plano Real, de 1994. Sempre atuou na cobertura diárias das decisões de política econômica dos Ministério do Planejamento, Fazenda e Banco Central. Experiência em grandes coberturas de finanças como das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional(FMI), do Banco Mundial(BIRD) e Banco Interamericano de Desenvolvimento(BID).


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