Ribamar Fonseca: Campanha contra Supremo ameaça integridade dos seus ministros

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“Ou o STF reage a essa campanha de ódio disseminada nas redes sociais, identificando e punindo os responsáveis, ou, além dos riscos a que os ministros estarão expostos, ficará tão fragilizado que não terá forças para impedir qualquer tentativa de implantação de uma nova ditadura”

Cresce nas redes sociais, impulsionada pela milícia virtual bolsonarista, a campanha contra o Supremo Tribunal Federal. A todo momento são postados comentários, sem citar o nome dos seus autores, incitando a população contra os ministros da Corte Suprema, muitas vezes chamando-os de “bandidos”. Num deles um sujeito falando com segurança e citando dispositivos inexistentes da Constituição, para enganar os tolos, afirma que Bolsonaro pode suspender as atividades do STF, afastar todos os ministros e prendê-los, após serem julgados pelo Superior Tribunal Militar. É surpreendente a desenvoltura com que essas pessoas atacam o Supremo, buscando convencer a população de que os ministros são “bandidos” que precisam ser presos porque fazem mal ao país. 

Esses sujeitos pregam uma ditadura com Bolsonaro, mascarando seus comentários com a aparência de democracia. São um grande perigo para a Nação, pois estimulam diariamente, com fakenews, o ódio da população contra a Corte Suprema, com o apoio de figuras como o jornalista Augusto Nunes que, usando o seu espaço na mídia, chama o ministro Gilmar Mendes de “superjuiz de picadeiro”  e prega o seu impeachment. Com aquela cara do Kiko do programa humorístico Chaves, Nunes, que recentemente agrediu o jornalista Glenn Greenwald, provavelmente não será levado a sério, mas deveria ser responsabilizado por incitação contra a Corte.  

Se o Supremo não tomar, urgentemente, medidas parta punir os responsáveis pela campanha na Internet, de modo a conter o seu ódio e a sua fúria contra os ministros, ninguém pode prever as suas consequências, pois tem muita gente que se deixou influenciar por essas milícias já pensa que os ministros são os grandes vilões do país. Ainda recentemente uma advogada gaúcha, Claudia Teixeira Gomes, recomendou nas redes sociais que “estuprem e matem as filhas dos ordinários ministros do STF”, uma atitude criminosa que retrata bem o ódio disseminado contra a Corte Suprema e que merece punição rigorosa, pois a impunidade dela certamente será um incentivo para agressões físicas. 

Até agentes públicos, como membros do Ministério Público, têm atacado a Corte, a exemplo da procuradora Thaméa Danelone, da Lava-Jato de São Paulo, que conspirou com Deltan Dallagnol, segundo revelou o The Intercept, para derrubar o ministro Gilmar Mendes. Um dos críticos daquela operação,  Gilmar se tornou o principal alvo dos seus integrantes e da milícia virtual bolsonarista. Com a ajuda da mídia, os lavatistas passaram a rotular de adeptos da corrupção qualquer pessoa que faça críticas aos seus  métodos, onde a Constituição e a legislação são ignoradas para facilitar os seus objetivos. Ou seja, eles cometem os mesmos crimes que condenam nos outros. E, segundo Gilmar, contaminaram o sistema judiciário brasileiro.  

Felizmente, à exceção dos ministros de confiança da Lava-Jato – Edson Fachin, Luiz Fux e Roberto Barroso – a Corte Suprema, que até bem pouco tempo chancelava os atos daquela força-tarefa, já se deu conta do êrro que cometeu e tudo indica que começa a reparar os abusos praticados pela operação de Curitiba. Na verdade, por não ter o STF contido a tempo os abusos dos procuradores e do então juiz Sergio Moro, além da ambição deles, é que a situação chegou a este ponto perigoso, em que qualquer um se julga no direito de interferir nos julgamentos e atacar a Corte, com graves ameaças até à integridade física dos ministros. Para isso muito contribuiu, também, a ameaça pública do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do Presidente, de fechar o Supremo “apenas com um cabo e um soldado” e, também, do general Villas Boas, que tentou intimidar a Corte, inclusive estacionando tanques às proximidades da sua sede,  para impedir a votação da proibição da prisão após a condenação em segunda instância. 

Ou o STF reage a essa campanha de ódio disseminada nas redes sociais, identificando e punindo os responsáveis, ou, além dos riscos a que os ministros estarão expostos,  ficará tão fragilizado que não terá forças para impedir qualquer tentativa de implantação de uma nova ditadura. Afinal, a julgar pelos sinais emitidos pelos seus filhos, inclusive quando aventaram a possibilidade de retorno do AI-5, parece que um regime de exceção estaria nos sonhos do capitão.

O fato é que de repente surgiu, com muita intensidade sobretudo nas redes sociais, um movimento contra o Supremo Federal, certamente porque suas últimas decisões desagradaram principalmente aos que desejavam que Lula “apodrecesse” na prisão. Na verdade, porém, o gatilho que disparou essa campanha teria sido  o pedido do ministro Dias Tóffoli, presidente da Suprema Corte, ao Banco Central para receber quase 20 mil relatórios do antigo Coaf sobre movimentações financeiras suspeitas.  Tóffoli, ao que parece, pretende  saber quais agentes públicos acessaram  o Coaf informalmente para receber informações que usaram contra alguns réus e que foram vazadas. 

O pedido, por isso, deixou em polvorosa especialmente o pessoal da Lava-Jato, acusado de usar o expediente ilegal para atingir seus objetivos, pois correm o risco de serem descobertos, inclusive os que vazaram informações relativas ao próprio Tóffoli e ao ministro Gilmar Mendes. Daí a manifestação oficial do Procurador Geral da República, Augusto Aras, pedindo ao presidente do STF para voltar atrás e devolver os relatórios. Tóffoli negou-se a atender Aras, o que incendiou os condutores da campanha contra a Corte, tendo a procuradora Thaméa Danelone, da Lava-Jato de São Paulo e recém-premiada com a promoção para Procuradora Regional, incentivado o Banco Central a não cumprir a determinação do presidente da Corte Suprema, ao dizer em post na Internet que “ordens manifestamente ilegais não devem ser cumpridas”. Ela seria uma das procuradoras que obtiveram ilegalmente informações do Coaf.  

Não se pode prever ainda o desfecho dessa campanha que, para ter sucesso, precisaria contar com o apoio do Senado, mas o mais provável é que não tenha maiores consequências quanto ao funcionamento da Corte Suprema. Ela será, porém, extremamente prejudiciai à imagem do Supremo, caso não haja uma reação concreta para por um fim à ação dessa verdadeira organização criminosa nas redes sociais, onde usam robôs para disseminar o ódio contra todos os que não compactuam com seus projetos. A julgar pelos comentários que se ouve nas ruas, grande parte da população já foi envenenada contra os ministros, bombardeada diariamente com postagens mentirosas e odientas principalmente no whatzapp. 

Muitos perguntam em que situação está o inquérito aberto pelo ministro Tóffoli sobre as fakenews agressivas ao STF? O Brasil precisa saber quem são os responsáveis por esse crime, os quais, usando a Internet, intoxicaram parte do povo. Até porque lamentavelmente tem muita gente que perdeu a capacidade de raciocinar e acredita em tudo o que é publicado nas redes sociais, inclusive obedecendo ordens que não sabe de onde partem, como, por exemplo, vestir uma camisa amarela e comparecer a determinados locais ou, simplesmente, colocar uma bandeira na janela da sua casa ou apartamento.  São verdadeiros zumbis que, anestesiados pelo bombardeio em seus celulares, pensam pela cabeça dos responsáveis pelas postagens. Alguma coisa deve ser feita para conter a ação desses criminosos, que descobriram na tecnologia, graças a Steve Bannon, um meio de conduzir o povo como gado. Aliás, foi assim que elegeram Donald Trump e Jair Bolsonaro e incentivam golpes na América do Sul.  

Por Ribamar Fonseca – Jornalista e escritor

no Brasil 247


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