O que sabemos de fato sobre o uso da cloroquina contra a Covid-19

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A Covid-19 se tornou a maior crise de saúde mundial em 100 anos. Mesmo possuindo baixa mortalidade, ela é altamente contagiosa e graças ao colapso dos sistemas de saúde pelo mundo todo, já causou a morte de milhares de pessoas. Agravando ainda mais a situação, por se tratar de um vírus desconhecido, não há qualquer tratamento cientificamente comprovado para a doença.

Em meio à pandemia, os cientistas e médicos do mundo todo correm para desenvolver um tratamento eficaz através de pesquisas em laboratórios e em ensaios clínicos. No entanto, os resultados destas pesquisas ainda são limitados e muitas têm produzido resultados questionáveis com metodologias e dados pouco confiáveis.

Estas pesquisas têm estudado a eficácia de diversos tipos de tratamentos, mas a que ficou mais conhecida no mundo inteiro é, sem dúvida, o uso da cloroquina. Isto se deve por líderes mundiais como Donald Trump e Jair Bolsonaro fazerem a defesa da medicação. Trump chegou a declarar que tem tomado cloroquina como medida “preventiva”. Bolsonaro, por sua vez, impôs à força a liberação da substância no sistema de saúde pública.

Entretanto, o fato é que não há comprovação científica de que a cloroquina reduz a mortalidade dos pacientes acometidos pela Covid-19. Inclusive, alguns estudos apontam a possibilidade de desenvolvimento de reações adversas que podem levar a óbito. Ainda, o presidente do Brasil liberou a administração de cloroquina com outros medicamentos como a azitromicina, um antibiótico potente. Porém, os cientistas alertam para o fato de que são desconhecidas as possíveis interações medicamentosas entre as duas substâncias.

Então, de onde surgiu essa obsessão pela cloroquina? A princípio, em experimentos realizados em in vitro, a cloroquina conseguiu bloquear a entrada do coronavirus em células humanas. Mas a forma como uma substância se comporta em laboratório, não é necessariamente a mesma como ela se comportará dentro do corpo humano.

Por conta disto, faz-se necessário uma pesquisa ampla, randomizada, com centenas de pacientes com os mais diversos graus de gravidade de uma doença, entre outros critérios científicos, para se produzir resultados confiáveis e imparciais. Até o momento, as pesquisas que apontam a suposta eficácia da cloroquina em testes clínicos, contaram com pouquíssimos pacientes e com o mesmo grau de gravidade da doença.

Assim, o desespero por se encontrar logo um tratamento eficaz contra o coronavirus tem atropelado a metodologia científica, criando em algumas pessoas uma espécie de fé cega na “sagrada” substância salvadora. É compreensível a necessidade das pessoas de se ter uma segurança, um bote salva-vidas no meio de uma crise sem precedentes para nossa geração atual. Porém, ignorar os protocolos científicos de pesquisa pode tornar as coisas ainda piores.

Por fim, soma-se a isso tudo um interesse político e econômico sobre a cloroquina. Os fabricantes da substância têm muito a ganhar com a compra em massa da cloroquina, mesmo que seja para as caixas mofarem nos depósitos de farmácias e hospitais.

Além disso, alimentar uma falsa esperança na mente dos brasileiros é do interesse de Bolsonaro, que há meses defende o fim do isolamento social e retorno das atividades econômicas. Oferecendo um medicamento “milagroso”, as pessoas têm aderido cada vez menos ao isolamento por acreditarem que se contraírem a Covid-19, não será grande coisa. Afinal, seu presidente garantiu que a cloroquina os salvaria caso isto aconteça.

Sendo assim, a oposição de diversos setores da sociedade à liberação irresponsável da cloroquina, não é apenas uma polarização política. Trata-se de cautela a respeito de uma medicação que ainda não teve sua eficácia e segurança comprovada para o tratamento da Covid-19. Mesmo que ela seja eficaz contra outras doenças, isto não significa que ela também seja contra um vírus desconhecido. Afinal, até mesmo medicamentos seguros, comprados sem receita nas farmácias, podem ser danosos, por exemplo, para quem esteja com dengue.

Por Ernandes Martins


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